Advertisement
             | 
 
quinta, 20 de novembro de 2008

Pesquisa

Conheça alguns de nossos autores:


Hélio Pequeno

Virgínia Allan

Marba Furtado

Quem Está Online

Nós temos 49 visitantes online

Autores Online:

O Torneio de Cantores de Wartburg PDF Imprimir E-mail
Fábulas da Marmota
Escrito por Luiz Eduardo Ulrich   
terça, 01 de janeiro de 2008








O Torneio de Cantores de Wartburg


Do que fez Heinrich Tannhäuser enfurecer um salão lotado de cavaleiros armados, e como foi que se safou da morte certa.

ou

Um Homem Comum Visita o Tannhäuser de Wagner II


Abre-se novamente o pano, e o que surge é a Sala dos Cantores, no interior do Castelo de Wartburg. A bela e casta Elisabeth faz a sua primeira aparição na ópera, justo na sala que há tanto tempo deixara de freqüentar. Evidentemente ela já sabe do retorno de Heinrich. Saúda o nobre salão no qual viu nascer seus sentimentos, que agora reviveria, ao ver cantar o seu amado. Heinrich chega acompanhado de Wolfran, que o encoraja a se aproximar dela.

Elisabeth tem dúvidas. Quase não consegue conter seus sentimentos amorosos, mas o misterioso sumiço de Heinrich a consumiu de tristeza por muito tempo: “Heinrich, Heinrich, o que me fizeste?”.

Tannhäuser desconversa quanto ao seu passado. Seu entusiasmo presente, pelo reencontro de sua mui-amada, o faz bendizer e exaltar o momento, bem como o “deus do amor” que o guiou de volta. Elisabeth se deixa contagiar pelo entusiasmo, e ambos cantam um tradicional dueto, acompanhados de longe por um resignado Wolfran. Este se limita a amar em segredo a princesa, em suas reflexões poéticas. Os apaixonados fazem menção de se abraçar, mas não o fazem, despedem-se. Heinrich deixa o salão junto com Wolfram.

Logo entra Hermann, soberano da Turíngia e tio da princesa. Ele veio recepcionar os convidados, pois o torneio dos cantores já está para começar. Um extraordinário número deverá comparecer, pois a corte já sabe que a princesa voltará a abrilhantar os embates poéticos com sua presença. As expectativas de todos são muito positivas. Hermann lê nos olhos de Elisabeth o que se passa em seu coração, mas pede a ela que mantenha seus sentimentos em segredo por mais um tempo.

Ouvem-se então fanfarras pelos metais, anunciando a chegada dos convidados. Estas fanfarras, às quais vão se somando a melodia, e depois o coro da entrada dos convidados, estão entre aqueles momentos mais inesquecíveis de toda a História da Música, capazes de figurar em muitas coletâneas populares de clássicos. O ponto culminante é o coro, que vai num crescendo, à medida em que entram os nobres e suas esposas, atingindo seu maior volume quando o salão já está cheio.

Entram os trovadores, cada qual portando sua lira. Herrman convoca os cantores a descrever a essência do amor. O que melhor cantar sobre esse tema, receberá “o prêmio” das mãos de Elisabeth.

Wolfran von Eschenbach é o primeiro. Seu canto sublime exalta o amor cortês, que deve ser admirado e protegido, mas nunca profanado. O amor para ele, como para todos no recinto, é sublime, celestial, é como uma estrela, que só à distância se aprecia em toda a sua beleza, e só assim pode encher de alegrias o coração. Todos saúdam a belíssima canção de Wolfran...

...Todos, menos Tannhäuser, que tem uma concepção, digamos, mais prática do amor. Da Fonte do Amor, descrita por Wolfram, Heinrich não concebe que possa satisfazer-se quem nela não se arroje com seus lábios. A Fonte é inesgotável, ensina Heinrich, como assim o é seu ardente desejo e sua sede insaciável de delícias.

Tal ponto de vista não satisfaz a audiência, e Walther von der Vogelweide replica, seguido pelo sombrio e combativo Biterolf. Ambos são interrompidos pelas trovas de um Tannhäuser cada vez mais exaltado e agressivo. Biterolf é frontalmente ofendido e saca a espada, ao que Hermann responde separando os adversários: “haja paz!”, brada.

Wolfram inicia, apressadamente, uma nova canção, em tom conciliador, mas, ao retomar suas imagens sobre o amor, é rudemente empurrado por Heinrich que, parecendo possuído por um estado de exaltação incontrolável, canta os prazeres do amor erótico, terminando por chutar inexoravelmente o pau da barraca: “só aquele que haja gozado em teus ardentes braços pode saber o que é o Amor! Pobres desgraçados, que nunca saboreastes o Amor! Correi ao Monte de Vênus!”.

Pânico total. Tannhäuser “gozou dos prazeres do inferno e habitou o Monte de Vênus”!!! As damas fogem do salão, horrorizadas. Os cavaleiros, dezenas deles, sacam suas espadas, e já estão prontos a fazer o “pecador” sangrar até a morte, quando Elisabeth, que não arredara o pé, intervém. Cobrindo Tannhäuser com seu corpo, desfere estas palavras:

Para trás! Não temo a morte!

Que me importam vossas espadas

Se é mortal o golpe que dele recebi?

Elisabeth convence os cavaleiros de que estes não podem privar o pecador de sua salvação, mediante o arrependimento e a penitência. Ela mesma, que teve seu coração despedaçado, implora por sua vida, lembrando que por ele também sofreu o Cristo.

Ela é, neste momento, a imagem viva da virgem Maria, vista no primeiro ato, pois com ela está plenamente identificada, a ponto de oferecer sua vida em martírio pela salvação do pecador. Suas palavras, as de uma “virgem pura”, como ela mesma assinala, têm poderoso efeito sobre os cavaleiros, que a tomam por um anjo vindo do céu, portador da palavra divina.

O discurso da princesa vai gradualmente guiando os nobres, que de uma radical atitude punitiva, estilo Antigo Testamento, oscilam para o perdão dos pecados, mediante o arrependimento e a penitência. Os ânimos se acalmam. Tannhäuser, desperto de seu êxtase infernal, se mostra agora mortalmente arrependido, implorando piedade aos céus. O fato de que ele agora tenha aquebrantado seus ímpetos, prostrando-se ao chão, favorece a benevolência cristã, recém-desperta na sala.

O soberano Hermann dirige a ação para seu término de forma mais objetiva. Em primeiro lugar, o pecador está banido da Turíngia. Em segundo lugar, apesar de todo o seu rechaço, ele indica um caminho pelo qual Heinrich poderá alcançar a salvação: seguir os peregrinos para Roma, onde eles esperam obter o perdão do papa.

As espadas dos cavaleiros uma vez mais se lançam contra Heinrich: ou redime-se de seus pecados, e retorna perdoado, ou não retorna nunca mais.

Providencialmente, ouvimos ao longe o canto dos peregrinos:

(Cai sobre mim o peso de meus pecados,

Já não posso mais suportar!

Não busco nem alívio, nem descanso,

Mas sofrimento e penitência) – 1º ato

Expiarei com humildade minha culpa

Na solene cerimônia da Graça.

Bendito aquele que persevera em sua fé

Pois será redimido pela penitência

O coro definitivamente suaviza o clima, que agora é mais de comoção do que de ira, e Tannhäuser, impulsionado por essa nova esperança, brada: “para Roma!!!”. Ao que todos no salão respondem “para Roma!!!”, enquanto nosso herói sai do salão correndo. É claro, os cavaleiros não perdem a oportunidade de apontar a direção de Roma com suas espadas, num estrondoso incentivo às boas intenções do pecador infame.

Falha a tentativa de Tannhäuser em conciliar os mais nobres sentimentos religiosos com o amor carnal e os prazeres mundanos. Ele força a situação até o ponto da ruptura, e aí é que se forma a incompatibilidade. Não apenas os dois mundos de Tannhäuser são inflexíveis. Ele próprio é inflexível, pois tenta impor incondicionalmente a sua vontade, sem considerar o ponto de vista dos outros. Defende seus ideais em termos de “tudo ou nada”, sem deixar nenhuma possibilidade de se achar uma solução intermediária.

Provocou uma verdadeira batalha entre si e os cantores, e de resto provocou o fígado de toda a audiência, ao ferir grosseiramente, com ataques pessoais, os sentimentos de seus colegas. Nem o público expectador poderá desculpá-lo, pois mesmo que achemos exagerado o moralismo turingiano, isso não nos autoriza a sair ofendendo a tudo e a todos. As pessoas, nos mundos de Tannhäuser, de boa vontade desejam saudar as melhores qualidades do poeta, mas este insiste em lhes fazer engolir o que ele tem de pior.

Talvez Wagner quisesse exatamente isso, de forma que o rechaço turingiano ao protagonista, bem como seu ulterior arrependimento, parecesse perfeitamente aceitável. Mais que isso, dá motivo a que finalmente Tannhäuser vá fazer o que pretendia desde o começo, quando fugiu do Monte de Vênus: expiar seus pecados mediante o sofrimento e as privações.

Entretanto, ainda uma vez mais, a solução encontrada é daquelas do tipo “tudo ou nada”. O que acontecerá se o papa decidir não perdoá-lo? Pelas características da obra, se falhar a solução mágica, sempre haverá uma saída trágica...


Leia outros textos deste autor ou coluna:

Roma Victor!
De Novo Aquele Assunto Chato
Dentadura Zero
Sedação
O Mundo dos Espíritos
A Arte da Fuga
Meus Escotomas
Comentários
Adicionar novo Busca
Virg[inia   |02-01-2008 07:20:06
Luiz Eduardo,
um cássico e feliz Ano Novo pra vc... tudo de bom.
Um abrço
Virgínia
Virgínia   |02-01-2008 07:26:03
Correção: Um clássico e feliz 2008.
Pelo menos aqui, carissimo, não corro o risco de "a emenda sair pior que o soneto".
Abraços
Virgínia
Eduardo H. Sabbi e Ibbas Filho  - Ópera prima   |02-01-2008 08:13:57
avatar Muito bem escrito Luiz Eduardo. Sei que estás trazendo uma sequência nos teus textos, mas acho que perdi no início, na minha ignorância ou ambos. Conta um pouco mais da idéia dos textos e a ópera de Wagner para eu me situar.

Mas essa Elisabeth, que recebeu um "golpe mortal" (da espada?) de Henrich ... de virgem não tem anda ... rsrsrs

Grande abraço e feliz Ano Novo!
Luiz Eduardo   |02-01-2008 15:43:03
feliz ano novo, virgínia, e respondendo uma pergunta de 15 dias atrás, o nome "marmota" se origina de um "jornal" subversivo que eu divulgava na faculdade nos anos 90. coisa pré-internet. chamava "A Marmota Ectópica"
Pedro Armando Furtado Volkmann  - Soluções Mágicas   |02-01-2008 15:50:08
avatar Realamente estranha esta mania de achar soluções mágicas para não criar finais trágicos. Belo texto, feliz 2008, aguaardo ansioso o resto do texto...
Luiz Eduardo   |02-01-2008 16:22:47
Eduardo,

Na minha opinião, penso que a Elisabeth é virgem sim, mas por falta de oportunidades. Há um forte esquema de segurança em torno dela. O \"mortal\" do golpe é que a \"espada\" de Heinrich tenha agredido a deusa Vênus. Aquela história de interesse sexual X romantismo, que esteve rolando no simpli umas semanas atrás (em textos aeronáuticos, se não me engano)... Na corte de Wartburg, o amor cortês e cavalheiresco é pré-condição inquestionável, sem a qual todo o congresso carnal é profano... regra quebrada com muita alegria pelo nosso brioso Heinrich. O plano geral da obra foi juntar duas lendas: 1. A do Tannhäuser, trovador medieval que teria se envolvido carnalmente com a deusa Vênus; 2. A lenda do Torneio de Cantores de Wartburg. O que me tem parecido é que Wagner tenta expressar: a) a tensão humana existente entre o erotismo e a religião; b) como oscilamos entre os dois, por precisarmos de ambos; c)os problemas causados por posicionamentos
inflexíveis de ambos os lados; d)os pontos aparentemente inconciliáveis entre as duas correntes; e)criar um quadro sensível e respeitoso de uma sociedade católica medieval, apesar de ele não ser católico; f) reunir, num mesmo mundo, o paganismo (através de divindades mitológicas romanas e germânicas) e o cristianismo. Este último item é melhor realizado em outras obras do autor de Tristão e Isolda, mas tem o seu papel em Tannhäuser. Porém o mais tocante em Tannhäuser, para mim, é a fé sincera e comovente dos peregrinos cristãos. Não uma fé exibida e orgulhosa, como a dos cavaleiros, mas um sentimento interior muito mais bonito.
abraços e feliz ano-novo!
Luiz Eduardo Ulrich   |02-01-2008 18:09:56
avatar Pedro,

Feliz 2008!
o "finale" não tardará...

abraços,
Eduardo H. Sabbi e Ibbas Filho  - Yes!   |02-01-2008 18:14:27
avatar Muito esclarecedor Luiz Eduardo e que riqueza de objetivos da obra. Fico feliz em estares publicando aqui no Simplicíssimo. Tristão e Isolda eu vi no cinema e gostei bastante. Seguiremos acompanhando teus interessantes escritos.
Escrever um comentário
Nome:
E-mail:
 
Website:
Título:
UBBCode:
[b] [i] [u] [url] [quote] [code] [img] 
 
:angry::0:confused::cheer:B):evil::silly::dry::lol::kiss::D:pinch:
:(:shock::X:side::):P:unsure::woohoo::huh::whistle:;):s
:!::?::idea::arrow:
Por favor coloque o código anti-spam que você lê na imagem.

3.26 Copyright (C) 2008 Compojoom.com / Copyright (C) 2007 Alain Georgette / Copyright (C) 2006 Frantisek Hliva. All rights reserved."

 
< Anterior   Próximo >

Leia artigos de edições anteriores:

Voto contínuo

Voto contínuo
Image

Divulgue o Simplicíssimo na sua Cidade - Imprima um Cartaz!

Banner do Simplicíssimo: pegue, línque e divulgue!


(by Carla)

Simplicíssimo - Abstracto-Concreto



Gentileza prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em tamanho maior no blógue do amigo.

O Pensador Selvagem

O Pensador Selvagem

Estatísticas

Membros: 538
Textos: 2737
WebLinks: 4
Visitantes: 4639492



Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

Syndicate

© 2008 Simplicíssimo - Viagens Etéreas e Psicodélicas Impressas no Éter Universal
Todos os direitos reservados - Sinta-se à vontade para reproduzir os textos do site, mas não esqueça de citar a fonte e o autor.
Site desenvolvido com Joomla! - software gratuito e fácil de usar!
*/