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Uma janela para a lua... PDF Imprimir E-mail
Cantilena do Corvo
Escrito por Virgínia Allan   
domingo, 20 de janeiro de 2008
Eu tinha uma janela para a lua, uma janela toda azul salpicada de estrelas, mas um buraco negro a engoliu e lá se foi minha janela e quase toda a minha vida também.
De vez em quando, em sonhos, o gato risonho do País das Maravilhas aonde, certa vez, enquanto repousava, foi parar a menina Alice, de vez em quando ele aparece e se mete por dentro do buraco e dá-me aquele sorriso, um sorriso grande e iluminado, e assim eu consigo vê-la, apenas por uns instantes, trancada e virada de cabeça para baixo.

As estrelas de minha janela toda azul, pobrezinhas, estão completamente apagadas, sem brilho algum, pois não é fácil viver na mais pura, crua e negra escuridão / solidão; não há brilho que resista, pois buraco negro que se preze, para poder manter sua fama de vilão não pode deixar nada sair de dentro dele, nem mesmo um fiozinho de luz. Em buraco negro, que segundo alguns estudiosos do assunto é tudo, menos um buraco, nada se vê e de lá nada sai.

É uma pena que eu só possa ter uma visão de minha janela toda azul, apenas em sonhos ou em pensamentos, o que vem, enfim a dar no mesmo.

Minha janela toda azul, salpicada de estrelas, inteiramente aberta para a lua, era assim como um porto seguro, minha fonte de inspiração e renovação, minha jóia rara guardada no mais recôndito de meu ser, mas que, entretanto, para o meu desalento, ficou para trás, em uma outra vida, mas que de vez em quando, no lamento da saudade, volto a rever / viver.

O buraco negro engoliu minha janela toda azul salpicada de estrelas escancarada para a lua, arrastando também consigo dias iguais a estes, dias de sol, de chuva, de vento, de céu azul ou cinzento, que, para mim, no entanto, de um jeito ou de outro, foram dias mais felizes, ou talvez, eu, quem sabe, mais jovem e ingênua, tivesse maior capacidade de acreditar em mudanças, sempre para o melhor, que nos são proporcionadas pelo lento / veloz passar do tempo.

Costuma-se dizer que quando “Deus fecha uma porta, abre uma janela”, o meu caso foi o inverso Ele fechou uma janela... Quero com isto dizer que ainda acredito em mudanças, sempre para o melhor, tanto é assim que tento ficar de fora do campo gravitacional do buraco opressor, embora minha capacidade de crença no ser humano tenha diminuído bastante. Mas, afinal, contudo, porém, todavia, deixemos o passado descansar em paz. Nem tudo está perdido e como a esperança é a última que morre vale-nos lembrar que todo buraco negro já teve seus dias de estrela.


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Comentários
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Betina Mariante   |06-02-2008 08:32:35
Virgínia!

Estou numa correria por aqui, mas comecei a ler teu texto e achei ótimo! Deu vontade de ler até o fim...A primeira frase levou a segunda, e à terceira, e assim por diante! Vou ler com calma mais tarde, mas já deu pra ver que é um texto rico de imagens e fantasia, pra embarcar na imaginação....! O primeiro parágrafo, que foi o que pude ler agora de manhã, adorei!

grande abraço e até mais tarde.
Betina
Virgínia   |06-02-2008 09:27:58
Betina, obrigada pela leitura. Gostaria eu de poder reaver minha janela para lua,mas o passado não volta.
Beijos
Virgínia
Betina Mariante   |06-02-2008 12:23:34
avatar Olá!

Agora pude ler o texto com calma, e até o final...E sim, o buraco negro já teve seu dia de estrela, como bem disseste...Acrescento que tudo é cíclico (a meu ver), e os fenômenos se renascem e se morrem, e se renascem em novos fenômenos, e assim por diante...Quem sabe a questão não está em "reaver a janela para a lua", mas em observar o que de belo e novo a janela agora traz...Tem dias em que a janela traz sim um belo alvorecer

Nesse nosso caleidoscópio de olhar para a vida, que a meu ver são os sentimentos e sensações, uma mera giradinha do cilindro para um lado ou outro já faz uma grande diferença...!!

Talvez tenha sido escesso de leituras da Fada que Tinha Idéias (a fadinha Clara-Luz), Pollyanna (a do "Jogo-do-Contente" e Rosa Maria no Castelo Encantado(Érico Veríssimo).....Mas olhar as coias sob este prisma sempre me trouxe boas surpresas!

Teu texto está ótimo, sempre muito bom de ler, transportando a gente para uma perspectiva que senti como
imaginativa e melancólica, ao mesmo tempo...Faz pensar, e muitas dessas coisas fazem parte do nosso reino imaginário...

Obrigada por essa viagem para fora ( e para dentro) da janela...

Abraço,
Betina
Virgínia   |06-02-2008 12:52:14
Betina,admiro muito tua capacidade de percepção,e como bem disseste tenho tentado em ver a vida sobre outro prisma e diria até que o universo tem conspirado a meu favor, mas ainda não consegui matar uma saudade doída que às vezes empana a alegria de meus dias. Quwe fazer, é a vida... vamos com ela.
sepre adiante.
Que bom poer ler tuas palavras amigas.
Abraços mil
Virgínia
Betina Mariante   |06-02-2008 16:09:39
Carissima

...Matar saudade muito doída é difícil, bom se tivesse um emplastro pra fazer passar. E nessa vida algumas dores são assim, mesmo, não tem jeito. Sem emplastro.

...Acho que escrever, ou qualquer forma de arte e sublimação, é um modo interessante e eficaz de lidar com essas dores...E é a beleza estética da arte, unida a essa possibilidade de nos libertar (às vezes só temporariamente) das dores, que torna o processo encantador, e de resultados muito bonitos, como no teu texto.

Mas também escrevemos por alegria, por surpresa, por vida dentro!!!

E sabe que pra mim a escrita, por si só, dói, também, muitas vezes...? Mas essa dor é que faz a caneta voar...!!!!! Que coisa, né...?

Escrevamos!!!

Abraço,
Betina
Vírginia   |06-02-2008 17:48:04
Betina,
com o tempo frio que está fazendo aqui me sinto um pouco melancólica e tuas palavras me comoveram tanto... obrigada por fazer eu me sentir melhor. Escrever e encontrar pessoas como vc, como o Eduardo e muitos outros que conheço me devolvem o ânimo e a força necessária para prosseguir... que bom que vocês existem.
Abraços, abraços
Virgínia
Betina Mariante   |06-02-2008 20:50:27
Que bom! Esse talento de escrita, e o gosto pelo ofício, faz de nós artífices da vontade de botar no papel, de compartilhar nossas idéias. Vontade de comunicar, de gerar uma rede de palavras que, mesmo no virtual, permanece sendo real criação literária. Em tudo, além da criação, acho que está o fenômeno do afeto que liga aqueles que conhecem o prazer (e a dor) de fazer a caneta funcionar...!!!Por isso cá estamos, comentários a fio, compartilhando a escrita.

Que fevereiro seja ótimo, e que esse friozinho te remeta à muita inspiração! Toca ficha!!!!!!

Grande abraço!
Eduardo H. Sabbi e Ibbas Filho  - Jogo de palavras   |07-02-2008 18:19:11
avatar Gostamos muito do uso sistemático de duplas de palavras: "escuridão / solidão", "rever / viver" e "lento / veloz". Nos lembrou a música Os Passistas, de Caetano Veloso, lida pelo professor Luiz Augusto Fischer no Sarau Elétrico. Para quem for atrás da letra, atente para o uso da inversão de letras formando palavras com sentido diferente, que começa com o giro da passista e reaparece ao longo do texto: "Roda ... A dor", "amas ... Mas, ah!", "Roma ... Amor". Quase imperceptível, quase despretensioso.

Lindo texto, mas não liga não para esse buraco negro. É um mala mesmo! rsrsrsrs

Um abraço!
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