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Cantilena do Corvo
Escrito por Virgínia Allan   
quinta, 24 de janeiro de 2008
Na casa em frente, há muito desabitada, voltou a morar alguém. Alguém que, em todas as tardes, perturba o silêncio do crepúsculo com os acordes altos de uma guitarra. E eu, que desistira da música, vejo-me tentado a levantar, bater-lhe a porta e conhecer o estranho músico, afinal a casa fica a menos de cinco passos da minha. Mas, logo cedo a vontade de resignar-me, e sentado perto da janela, ouço até o fim a explosão majestosa de talento do desconhecido vizinho, que todas as tardes perturba o silêncio de minha alma com os altos acordes de uma guitarra.

Numa das vezes em que o escutava, sentei-me ao piano que ficava junto à janela, e desde aquele dia foi assim, todas as tardes, durante um longo tempo.

Ele, um estranho para mim, tocando sua guitarra atrás de uma porta fechada e eu, um estranho para ele, - talvez, na verdade, eu pouco lhe importasse - tocando meu piano perto da janela aberta, enquanto o crepúsculo, perturbado em seu silêncio pelo som dos instrumentos, abraçava as notas musicais que vagavam pelo ar.

Um dia, antes do entardecer, ele, o estranho, bateu-me à porta; reconheci-o prontamente, pois fizera bastante sucesso e agora andava um pouco esquecido. Ele também me reconheceu um músico promissor e desistente. Olhamo-nos sem espanto, cúmplices no abandono de velhos sonhos e na busca incessante de uma nova composição para nossas vidas, éramos um.

Estendendo-me a mão, entregou-me um disco gravado com a música tocada ao entardecer e sem nada dizer-me, já que conhecíamos o quanto em certos momentos eram as palavras totalmente irrelevantes, acenou-me um adeus e entrou de volta a casa, fechando a porta atrás de si.

No silêncio que se seguiu nas tardes calmas, descobri que ele partira, e a casa, de novo desabitada, era como que um prolongamento de nossa canção.

Por trás da porta fechada, a eternidade dançava uma canção feita de vida.

De minha janela, sempre aberta, vi o crepúsculo descer suavemente. Em paz, com a alma quieta, escutei a canção do silêncio.

--
*Este conto gerou outro, “Aurora”, de Eduardo H. Sabbi e Ibbas Filho, (veja a sequência dos comentários).


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Comentários
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Betina Mariante   |30-01-2008 10:37:42
avatar Cara Virgínia, colega das janelas literárias deste espaço!

Gostei muito do texto, a sensação dele é tão perceptível que a gente "entra" na cena...A linguagem muito boa, os personagens de cada um, a idéia: todos componentes de uma bela produção.

Parabéns!

Abraço,
Betina
Eduardo H. Sabbi e Ibbas Filho  - O músico   |31-01-2008 15:53:14
avatar Bem legal. Desses que renderia um texto sob o ângulo do músico vizinho a instigar a curiosidade e o piano do outro.

Um abraço!
Virgínia   |01-02-2008 07:47:41
Betina, muito obrigada. Você, sempre delicada. Uma flor!.
um grande abraço


Eduardo, bem que podias então reescrever o texto sob o ângulo do "guitar-hero"... Gostaria de ler.
até mais
Virgínia
Eduardo H. Sabbi e Ibbas Filho  - Guitar-hero   |05-02-2008 16:27:42
avatar Pode deixar Virgínia, já comecei a rabiscar por aqui ...
Virgínia   |05-02-2008 17:10:52
Ôpa,ôpa... Eduardo, estou aguardando...
Abraços
Virgínia
Lilly Falcão  - Entre crepúsculos e auroras   |17-02-2008 21:16:19
avatar só posso dizer: "benzadêz"!

Sinfonia para os olhos! Ouço e gravo a melodia no coração! Bjks!
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