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O Marquês (V) PDF Imprimir E-mail
Manuscritos
Escrito por Rodrigo Monzani   
domingo, 24 de fevereiro de 2008
“A imoralidade da mentira não consiste na violação da verdade. Ao fim e ao cabo, tem direito a invocá-la uma sociedade que induz os seus membros compulsivos a falar com franqueza para, logo a seguir, tanto mais seguramente os poder surpreender.”
 
Theodore Adorno, in "Minima Moralia"

Sem compaixão ou amor, a guerra e a morte, a destruição que se edificou às margens de cada pequeno rio, às ruas e esquinas da Cidade dos Ventos foi o que lhe trouxe de volta à vida. Não àquela existência de amor insuficiente, de sentimentos silenciosos com o coração repleto de terra, mas a uma que, naturalmente, a própria cidade esperara pulsar sua vida inteira. A guerra lhe trouxe a necessidade de transcendência, a simples razão que existe somente no espetáculo da morte e “- que sejam dadas vivas aos enterros!”, proclamou aos cuspes o velho Arnaud a um garoto raquítico que fazia sombra à entrada de seu salão imundo e inóspito, enquanto explanava suas sombrias idéias sobre a vida dos sentimentos, dos novos sentimentos que advém da morte na guerra.

“- Assim como o homem, meu caro, a morte tem sempre duas faces. E essas faces se mostram acima e dentro de nós, como céu estrelado e nossa lei moral” – Arnaud, calça xadrez e finos suspensórios, declarou, por fim, ao garoto Granier.

Willian Granier sentiu-se tentado a ignorar não somente as idéias, mas também a própria existência de Arnaud, mas, a despeito da sutil verdade que certamente existe nos clichês como nos discursos daquele velho e decadente dono de salão, Granier o viu, antes, como um homem que dormia em lenta caminhada e que, agora em destruição e junto a cadáveres de guerra, revivera as estrelas do céu e sua moralidade, antes imperceptíveis pela monotonia dos dias, mas que no pós-guerra renascera-lhe como a alma de um homem revoltado, vítima que era da servidão de seu amor adormecido.

Na segunda parte de sua ida àquele salão de carteado, Will expôs seu interesse em trabalhar sob o comando de Arnaud na recuperação do local, sem a necessidade inicial de pagamento. Disse que gostaria de manter seu espírito ocupado naquelas terras onde as pessoas morriam de tifo ou viviam como mortos, sem ter o que fazer.

Arnaud olhou o pequeno com o ar comum às pessoas sensatas da localidade. Apesar da beleza frágil de Will, Arnaud reconheceu a dura e teimosa altivez em seus modos, como o desprezo duro e teimoso que ele próprio, Arnaud, sentia pela desimportância das providências da vida.

O velho Arnaud ergueu rapidamente o chapéu aos cabelos grisalhos, pois, estranhamente, a visão de Will começava a asfixiá-lo. Ele se veste de cor cinza e, gentil de várias formas, possui um largo sorriso e voz grave, uma fronte alta e com seu nariz aquilino, em suma, não falta a sua face uma certa regularidade: acha-se mesmo que, à primeira vista, ele consegue reunir a dignidade dessa espécie de sabedoria que ainda se pode encontrar nos homens de sessenta anos. Brevemente, porém, ao observador mais atento, Arnaud nada mais era que contentamento próprio e auto-suficiência misturado a melancolia. E pouco inventivo. Sabe-se, enfim, de certo, que o talento daquele homem se limita a jogar um bom pôquer e a administrar seu salão de carteado de pedras de cantaria, que nesse momento de sua vida estavam caindo, abandonado que estava àquela época de abandono.

É neste cenário que surge a Arnaud a imagem de Willian Granier; e somente num cenário como este o pequeno personagem poderia entregar ao mundo o pouco prazer de seus olhos. Granier apreciou a atmosfera pós-guerra e a idéia de trabalhar num salão de carteado consolava-o de suas infelicidades, que ele julgava grandes, e dobrava-lhe a alegria, quando a tinha. O medo, aos poucos, redobrou sua atenção e apoderou-se dele, com toda a força da primeira idéia que uma alma apaixonada imagina ter inventado, o desejo de expôr-se a mil mortes, que fosse, para então chegar a sua fortuna. Mantinha-se porém seu secreto terror do fracasso e é ali que a recente vivacidade de Granier lhe pergunta: “- O que quer aqui, menino?”

O menino descobriu querer tudo que o velho Arnaud sempre quis: o dinheiro de dívidas nunca pagas, queria clientes bons de volta, a época dos jovens de seriedade profunda com o pôquer, de homens rivais na mesa e na utilidade de seus jogos; e Granier, perdido que estava, se encontrou seduzido pelo nascimento de singularidades do jogo que até então desconhecia e que agora interiorizava não como uma simples parte de seu humor, mas como parte de seu apreço que até agora teve por si, como se tudo mais tivesse sido mera bizarra vaidade, ou mesmo sua própria e simples forma de orgulho laboriosamente conquistado através do autodesprezo, a última e mais séria pretensão de manter vivo o apreço por si mesmo. Com os próprios punhos, doravante o caminho que tomava lhe descrevia na forma da melhor decência que seu coração maldoso permitia o que seria capaz de aspirar e pôr à obra.

Não é indigno do maior dos heróis aspirar a esta continuação de seus planos, mesmo como um mero tarefeiro. Tão impetuosamente a sua vontade o atinge como ele anseia por essa existência, identificado que o homem se torna com a tarefa. E mesmo os lamentos de Granier se tornaram seu hino silencioso de louvor, a sobreforça que lhe faltava para entrar e vencer num salão de carteado e se manter em pé, vivo e satisfeito como um artista ingênuo, o que certamente ele também não deixava de ser.

Aqui, neste supremo perigo da vontade, Willian Granier se aproxima de sua arte, e somente ele é agora capaz de converter pensamentos em representações sobre as quais se pode viver: o sublime e o alívio como a domesticação do medo e do nojo que o mesmo salão imundo suscitava. O homem aniquila suas fronteiras e liberta-se do coro de sátiros que não mais cantam sua derrota. Mesmo sem pensar sobre este medo, este susto e sobre o absurdo do que ainda estaria por vir, mesmo sem pensar nesta barata sabedoria de excesso de possibilidades, Granier não mais carece de algum consolo.

Sua mentira que antes lhe servira de mero meio de comunicação com o mundo e consigo mesmo transformara-se, através de suas novas singularidades, numa nova sociedade graças a qual Will estendeu, a sua volta, a frieza sob cuja capa protetora pôde, enfim, prosperar.

A insegurança se esvaía e aquela nova sociedade o surpreendia.


Leia outros textos deste autor ou coluna:

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Comentários
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Lilly Falcão  - UAU!!!   |27-02-2008 18:29:18
..."o sublime e o alívio como a domesticação do medo e do nojo..."

super texto, muito eloqüente!!! favoritado não é roubado!!!

Parabéns!

Bjks

Lilly
Rodrigo Monzani   |27-02-2008 22:31:31
Obrigado Lilly, mas meu texto é super somente no atraso. Super atrasado, já são dois meses desde o capítulo anterior de 'O Marquês', espero por um tempo para manter a regularidade e continuar contando com sua atenção.

Bjks,
Rodrigo
Virg;inia   |28-02-2008 12:56:35
Rodrigo,
bom ter de volta o Marquês... quer dizer que vamos ficar a par de todo o desenrolar da história? ou pretendes ficar por ai, pela quinta parte? Vamos ter que esperar o Marquês sair em livro?
Úma ótima história... de uma forma ou de outra, espero saber o final.
Um abraço
Virgínia
Rodrigo Monzani   |28-02-2008 19:54:31
Olá Virgínia, é bom voltar ao site também... mas não pretendo parar agora, essa história ainda vai longe. Se você souber de mais alguém que a lê, já seremos quatro! rsrsrs

Obrigado pelo elogio, não vá embora, fique por aqui.
Um abraço,
Rodrigo
Pedro Armando Furtado Volkmann  - Mar quês   |03-03-2008 00:17:13
avatar Este texto é para ser digerido devagar... ötimas idéias, sem espaço para pensar... Gostaria de escreve algo assim. Que o MArquês venha para ficar...
Rodrigo   |03-03-2008 23:11:52
Olá Pedro, obrigado pelo comentário.

Realmente, nesses primeiros capítulos, a história se mantém 'fechada'. Talvez os espaços para pensar surjam nas sequências, valeu a dica!
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