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O Marquês (VI) PDF Imprimir E-mail
Manuscritos
Escrito por Rodrigo Monzani   
domingo, 16 de março de 2008
“- Quando os fins são grandes, a humanidade não julga o crime como tal, mesmo recorrendo aos meios mais terríveis.”
Friedrich Nietzsche (1844-1900)

Os longos raciocínios nos quais Arnaud mergulhava nas tardes em seu salão trouxeram a Granier uma idéia até então desmedida em seu desejo: na natureza, agora, havia a necessidade do crime, que é preciso destruir para criar, a criar a partir do momento em que o homem destrói a si próprio. É duvidoso que Arnaud tivesse tais impressões do pós-guerra na Cidades do Ventos como um sentimento profundo, pois sua palavra aproximava-se mais de um sacrilégio, um horror religioso que o levava à tais conclusões.

O velho Arnaud sonhava com o livre, e a liberdade que reclamava não era a dos princípios, mas a dos instintos, daí sua revolta romântica, exaltanto a alma do indivíduo, sua danação, um flerte com os modos sombrios, para justificar um verdadeiro revoltado que não exige a vida, mas as razões da vida. Ele rejeita as consequências que a morte traz, a não ser uma: a necessidade de uma nova criação a partir da dor da destruição. Tratava-se, portanto, somente de suas recusas pessoais.

Desenvolvida conscientemente, a adaptação de Will ao trabalho e a estes discursos de seu senhorio projetou em Granier um culto diferente ao do pôquer e ao da mentira, porém estreitamente ligado ao seu talento com as cartas: o culto pelo crime.

Se um jogador de pôquer cultua o indivíduo e o movimento, não toma, porém, o partido moral dos mesmos indivíduos, mas tão somente o próprio partido de sua mentira final. No pôquer, a admiração é amoral e somente em lugares fechados, muitos dos quais se é impossível escapar, a falta moral pode funcionar segundo um regime implacável. Salões de carteado são, sem dúvida, implacáveis quanto a seus regimes, onde a presunçosa aliança da liberdade e da virtude social encontra sua idealização no blefe perfeito, sem o qual não há liberdade, nem virtude. Contudo, a lógica do pôquer envolve paixões, e estas invertem a ordem tradicional do raciocínio e coloca conclusões antes das premissas. O blefe é sempre a premissa do jogo e do jogador, nunca sua conclusão.

O essencial não é ainda remontar a estratégias de jogo, mas, sendo o mundo o que é, saber como conduzir-se neles, no mundo e no jogo. No tempo do pós-guerra, a Cidade dos Ventos transcendeu ao inferno das necessidades, e sendo tão necessárias, tudo tornou-se fechado, implacável e mentiroso, como um jogo de pôquer. Um pôquer social onde os raciocínios se sustentavam, mas os sentimentos condenavam coerentemente a imperfeição dos homens.

Assim, pereceram as famílias, as tradições e as boas regras, atiçou-se o fogo dos crematórios; e as virtudes, quando não absurdas à uma necessidade de sobrevivência numa cidade devastada pela guerra, se tornaram acasos ou caprichos. Deus, incompreendido, fez de todos como Ele, e todos, assim, trapaceavam, a cada amanhecer, assassinos cruzavam a aurora da cidade e se esgueiravam até noite adentro. Suas ideologias poderiam, enfim, prosperar.

O crime poderia servir para tudo, até mesmo para transformar criminosos, maltrapilhos, leprosos, sodomitas e assassinos em juízes. Em tais ideologias, a vã filosofia dos novos tempos do pós-guerra na Cidade dos Ventos.

Quando ocorre, em tempos como aqueles, de a sociedade refugiar-se em ideologias onde o crime passa à razão de sobrevivência, ele assume as figuras da própria razão. O crime, antes condenável como um tiro na noite, se fez razão. Ontem julgado, hoje faz a lei. E em tempos de crimes tão cândidos, os assassinatos adquiriram a eficácia imediata.

Artista ingênuo e gênio, Granier era assassino que tinha-se negado muito. Somente assim poderia, agora, negar os outros, totalmente indiferente a seus crimes, tornando-os incrivelmente possíveis. Mas, por ora, a reflexão pode conduzir a mera simplificação de suas regras de ação, como um criminoso comodamente regido pela premeditação e sem desculpas de amor. Não nos indignemos contra tal interpretação, mas Willian Granier era mais do que isso.

Seus crimes se enfeitavam com as vestes da inocência e por uma curiosa inversão peculiar de sentido, desejava-se a morte de suas vítimas. Se o mundo ignorava essa nova sociedade do crime, somente sabendo perfeitamente o que ignorava é que poderia lhe ser indiferente. As pessoas conheciam Arnaud, passaram também a ver Granier mais frequentemente, porém, lhes ignoravam a existência, pois o essencial da sociedade pós-guerra, do pôquer social, não era a revolta, como a de Arnaud, mas sua nova doutrina resumia-se no consentimento total, na não-resistência ao mal, consentir em sentir e sofrer pessoalmente o mal que o novo mundo agora contém.

Religiosos tentaram, e nada puderam fazer diante deste ceticismo social, sem perceber que o sintoma mais grave de nova sociedade não se encontrava no ateísmo, mas na incapacidade de acreditar no que existe, de ver o que se fazia pelas ruas, de punir tais crimes, de viver o que é oferecido. Na cidade dos Ventos, a moral não tinha fé no mundo real.

Em épocas anteriores, houve homens em que a paixão pelo jogo era tão forte que acabava em excessos criminosos, porém, tais crimes eram como o ardor de uma satisfação, e não uma ordem monótona, instaurada pela mesquinhez dos perdedores ou dos donos do carteado. À esta lógica, tudo tende a se igualar, a se anular, e nesta anulação, anularam-se os valores do assassinato, dos quais aquele tempo tão bem se alimentou, levando às últimas consequências a legitimação da morte e do crime.

Deste modo legitimado, matava-se coletivamente aqueles que não pagavam suas dívidas dos jogos. A destruição dos valores nada representava para os mais insanos que se preparavam em suas tumbas recém cavadas para uma morte flamejante. As pessoas morreriam, e muitas delas arrastavam consigo suas famílias, suas amantes, um mundo inteiro.

Havia aqueles que se matavam na solidão, preservando o valor de não reivindicar para si o direito sobre a vida de seus familiares. Todo suicídio era um desdenho à falta de fé e, num desses paradoxos sociais, a aumentava exponencialmente.

Embora sem fé, existia nas pessoas a necessidade do conforto, e portanto, dos jogos. Para dizer que tal vida é absurda, a consciência tem necessidade de estar viva, e não havia modo de manter vivo o beneffício exclusivo de tal raciocínio, sem uma notável concessão social ao gosto pelo entreterimento. Estar consciente era querer jogar, e assim, a era do pós-guerra era também a época do renascimento dos salões de carteado. Era a época do renascimento de Arnaud e Granier.


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Comentários
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Pedro Armando Furtado Volkmann  - Triste e verdadeiro   |24-03-2008 00:48:24
avatar Uma das formas de justificar as torturas na América Latina foi de justificar as mortes. Todos os subversivos, amigos de subversivos, pessoas uqe poderiam ser subversivas, pessoas que jamanis o seriam, mas por alguma razão assim eram chamadas, tinham uma razão para morrer. Por isto suas mortes eram justas e corretas. Merda esta condição pobre e mesquinha humana. :cry :cry
Rodrigo Monzani  - Camus para quem entende   |24-03-2008 01:40:42
Puxa, Pedro, ótimo, o seu comentário.

Tive a intenção de contextualizar os assassinatos dessa história de ficção usando premissas reais que legitimaram os crimes, mas não pensei que alguém percebesse tamanha pretensão; obviamente, não pela falta de substratos dos leitores, mas devido as minhas próprias limitações.


Achei mesmo que as pessoas não entenderiam o quanto de subversão esse capítulo contém, o quanto de seus ideais tentei amarrar à história de Willian Granier; e pensei mesmo que denotariam uma certa "crise" neste tipo de literatura.

Enrique Vila Matas, escritor que critica unicamente a mescla de ficção com biografia em uma de suas obras, 'O Mal de Montano', defende este tipo de desenvolvimento literário e deve se preparar para as equívocas interpretações que sua crítica, na citada obra, pode trazer à tona.

Sua leitura, Pedro, foi pontual e certeira e, se gostas desses assuntos, te recomendo um de meus livros favoritos: "O Homem Revoltado", de
Albert Camus.
Virgínia   |24-03-2008 14:49:24
Todas as mortes requerem uma justificativa, a revolta sob qualquer ponto de vista, justifica todas as coisas, todos os delitos... matar ou morrer sempre exige uma razão...Ei, Rodrigo, a ponderação filosófica não é o meu forte,e quando envolve questões sociais... aí sim, é o fim...fico dando voltas em torno de meus pensamentos, feito redemoinho, e não chego a lugar nenhum na tentativa de entender as absurdas escolhas, razões e justificativas do ser humano, mas acho ótima a tua história...fã mesmo
Um grande abraço
Virgínia
Pedro Armando Furtado Volkmann  - Fazendo comentários na fazenda   |25-03-2008 03:35:46
avatar No final de semana, estava com uns amigos argentinos que escaparam de ditadura, sendo que uma das pessoas sobreviveu depois de tomar um tiro na nuca. Aquelas coisas que ninguém sabe como. De qualquer forma, o assunto versava de como os militares justificaram seus assassinatos, tornando-os necessidades perante a sociedade. Estranhas conexões.
Rodrigo Monzani  - Crimes, Arte e Sociedade.   |26-03-2008 00:05:17
As justificativas de assassinatos, o cinismo, o terror individual, os crimes de conformismo e oportunismo, a divinização de falsos divinos, essas consequências fortuitas vão nascer, todas armadas, de uma concepção equivocada do mundo, que remete, unicamente à história, o cuidado de produzir valores e verdades.

O que é divino é também acidental, fortuito e casual, por isso, somente a arte, por ser igualmente casual, é capaz de entender o divino. Os verdadeiros criminosos, não os fracos criminosos materialistas e inconsequentes, mas os verdadeiros, são também artistas, talvez ingênuos, mas ainda artistas. A nossa história, a história do homem, é a era da arte e do crime perfeito.


Se nada pode ser entendido claramente antes que a verdade venha à tona, toda ação é arbitrária. E, por fim, a força reina. Hegel escreveu: 'Se a realidade é inconcebível, é preciso que forjemos conceitos inconcebíveis'. Um conceito, como a justificativa de mortes no plano social, que não pode ser
concebido, precisa ser forjado e imposto. Sua aceitação não depende da persuasão, e enquanto as ações, na falta da verdade, são arbitrárias, estas também podem servir para transformar assassinos em juízes.

Virginia, mais uma vez obrigado pela sua atenção. Sinto mesmo que não mereço uma fã, mas agradeço seus comentários sobre 'O Marquês'. Fico lisonjeado.

Pedro, assassinatos se tornam necessidades sociais porque a tentativa de superação de seu terror, do terror do crime, consegue apenas ampliar o mesmo terror. Talvez por isso Sade e Nietzsche defendam que o único valor reside no egoísmo racional.

Abraços e até a próxima.
Virgínia   |26-03-2008 13:33:48
Rodrigo, isso de assassinos se trnasformarem em juízes lembrou-me um fato real... tempos atrás, aqui em Manaus, um sujeito matou a enteada de quinze anos. Foi preso e amargou anos na prisão e dizendo-se arrependido, pôs-se a estudar direito. Após pagar sua pena tentou a vaga de juiz, pelo menos em duas capitais, no que lhe foi negado, posto que não lhe era de direito pelo crime cometido. Mas para surpresa de todos foi para Fortaleza, onde hj exerce a função de juiz de direito, plenamente acatado e reconhecido pelo Supremo Tribunal... não sei que argumentos usou para conseguir o que tanto queria, fato é que aconseguiu,um assassino tranformado em juiz...
Abraços
Virgínia
Pedro Armando Furtado Volkmann  - ATÉ A PRÓXIMA   |27-03-2008 03:52:00
avatar Pois é rodrigo, vou preparar um texto com minha opinião sobre o assunto.'Vai ser bem leve, como um avião da TAM.
Espero que a gente continue esta conversa.
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