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Escrito por Luís Sérgio Lico   
sexta, 11 de abril de 2008
Vivemos uma síndrome de denuncismo. Em todo lugar apontam letras, câmaras e microfones. São tantas as irregularidades, desmandos, desvios e descasos que na pauta somente entram as mais escandalosas. Como aqui as coisas levam tempo para se resolver, cria-se uma situação onde a própria denúncia é esvaziada de seu frescor, solapada pela vigarice mais recente. Instrumentos legítimos são utilizados para a metaexposição de tantas irregularidades que perdem sua aura de seriedade. Quem sabe, estamos cansados de tentar descobrir se o poço tem fundo.

O que gela a espinha é a hipótese de nossas endemias terem atingido um grau tão diáfano de sofisticação, que na iminência de qualquer flagrante, será melhor efetuar a denúncia. Assim, para o meliante matam-se dois toelhos: não há mais risco de ser chantageado e perder muito dinheiro e, com a ressaca no mar bravo das mazelas semanais, logo o caso será esquecido e superado pelo andar da fila. Além do mais, o trâmite agora será o da justiça e, se o dito cujo for bem administrado nas variadas brechas da lei e da criatividade brasileira, significará uma senhora enormidade de tempo. Entrementes, a vida continua. Vamos tocando.

Assim, neste fluxo contínuo, o que catalogamos diariamente são apenas os alertas. Repentes midiáticos, por um lado ajudam a organizar, em nossa mente, a emersão da bandalheira ou da novidade. Sendo que, por outro, nos remete a uma seletividade grotesca, onde o resultado é a apatia e omissão. Isto, porque, com estes movimentos opinativos contraditórios, a todo volume nos veículos de comunicação, acabamos formando medleys: misturas onde nada se destaca ao fundo. Sabemos tudo, mas não lembramos nada. Dói a impotência e por isso se diz que não se tem nada com isso, nem os bispos. Na pátria amada, el condor pasa e reclamar não leva a nada!

Dada a impossibilidade da réplica eficaz, ou da inutilidade da interação seja pelo correio, cartório ou via on-line, acabamos inserindo esta torrente de “informação” – boa, inútil ou ruim -, como parte de um “processo” e relegando, finalmente tudo à caixa de spam. Os estímulos valem no máximo um comentário e as indignações são tão perecíveis, quanto pífias nossas reações. Anestesiados, não mais reagimos se for alta a taxa de repetição. Alguém sabe o endereço do ombudsman?

O marketing cunhou a pérola: Realidade é igual à percepção. Querendo dizer que o impacto é que importa na campanha. Na vida real, acertou no que não viu. Portanto, nada é real, se não é conosco ou não percebemos. Lembra o papo dos céticos sobre se a cadeira continua na sala se sairmos dela... Assim, misturamos alhos com bugalhos e nos alheamos de tudo, mesmo sem saber. Afinal, em sociedade é preciso não “destoar” da multidão de contemporizadores.

Em todos os sentidos, acabamos desmotivados por nossas próprias reflexões, talvez ruminando aquela sensação antiga de que “as coisas nunca vão mudar” e adoçando o paladar com adoçante. Neste ponto é que geralmente encerramos o café peão com um acento papai sabe tudo afirmando: a vida é assim! Bola prá frente. Alguém precisa pagar o supermercado.

Perspectivamente, este monday morning feeling que aqui nos trópicos dura toda a semana, seja explicável, pela engenharia da máquina. Mas, deve ser superado ou murcharemos. Pequenos passos de gigante é que poderão nos tirar da má situação. A constância na ação é que produz o resultado desejado e, somente assim, as coisas mudam! Sucesso é fazer a mesma coisa mil vezes, da maneira certa. Toda transação deve ser justa.

Outra coisa a evitar é que a cegueira causada por discursos do tipo "temos que dar nossa cota de sacrifício para a rentabilidade da empresa ou para o progresso do país", que condicionando a felicidade à fusão alienígena do sujeito no objeto, aliena completamente os caraíbas. Depois vem o consultor e diz: A vida é assim, acostume-se e aprenda a "superar desafios". A tropa é de elite e o soldado, raso. Say yes!

Aí eu pergunto: os straight tragets nos fazem render tanto assim? Quero dizer: Na velocidade das mudanças, com tanta demanda cognitiva e afeto-sensorial sendo exigida, como evitar que sua essência sublime ao vento, desaparecendo aos poucos? Melhor viver dez anos a mil? Se for assim há pouco espaço para manobras. Atravessar os pântanos do mercado e aterrissar nos resultados é uma tarefa arriscada. Pela lei do core business, os míopes perdem tudo na conquista das coleções de Mbas. Entenda bem: Você só dança se errar o árvaro! Epsílones com PhD.

E o resto? O mundo e as pessoas: Que mundo? Que pessoas? Se eu não percebo sua dor ou necessidade, a lógica disjuntiva diz que, ou você não existe ou não está sofrendo. Além disso, os modelos funcionam e as estatísticas são confiáveis. Alguém vai querer contrariar a razão? Então é isso: Vamos em frente que atrás vem gente, afinal: Nós que aqui estamos por vós esperamos!

--
Luís Sérgio Lico é Filósofo e Consultor. Desenvolve Treinamentos e Palestras
em Excelência Profissional. Autor dos Livros: O Profissional Invisível e O Fator Humano. Visite o site: www.consultivelabs.com.br


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Comentários
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Marcos Claudino   |24-04-2008 16:16:05
avatar Bem vindo, amigo Luís. Pois é, de tudo, o pouco que se pega, se compra ou se rouba (que nunca é pouco), é que a bagunça é organizada de uma maneira que não possamos realmente ter qualquer controle. Nardonnis misturam-se ao preço da energia de Itaipu, temperados por boa dose da CPI dos cartões corporativos (com ou sem a Dilma), com salpicadas de Copa Libertadores. Ao final, o Bonner diz aquele cansado \"boa noite\", e partimos pra novela, a última das realidades mais importantes.

Parabéns, belo texto.

Marcos Claudino
Pedro Armando Furtado Volkmann  - Entrando pelo cano doo marketing   |29-04-2008 17:26:40
avatar Realmente, o marketing já a bastante tempo cultua esta pérola, que é somos o que percebemos. A grande falácia é acreditar que este conceito, muito em voga nos tempos das febres "Quem Somos nós?" e "The Secret" seja como o conceito dos antigos orientais e os conceitos da física quântica moderna. Tudo uma questão de níveis de consciência. De qualquer forma, a melhor forma de desinformar todos sobre tudo e disponibilizar todas as informações sobre tudo. Teoria do caos? Não! Teoria do criador... dos textos do I-racional.
Eduardo H. Sabbi e Ibbas Filho  - Manchetes   |29-04-2008 17:37:00
avatar Maravilhosa estréia Luís Sérgio Lico, adoramos este texto, com muito a se refletir. Hoje temos mais informação, sabemos mais, talvez demais a ponto de não darmos conta. Nosso cérebro deve demorar ainda alguns séculos ou milênios para renascer com nanoneurônios, muito mais eficazes.

Enquanto isso vamos na onda. Da novela, dos boatos, do BBB, da Isabella, de processar por qualquer razão (ou sem ela). E os impunes fazem parte de uma moda que nunca saiu de cartaz.

Um irmão me dizia sobre a mídia há uns 20 anos atrás: "o que eles fazem é nos acomodar. Ficamos sem reclamar já que alguém (a mídia) está fazendo por nós..."

"Nada é real, se não é conosco ou não percebemos" nos remeteu ao minconto de Jefferson Justino de Queiroz no nosso I Concurso de Minicontos, que infelizmente não saiu vencedor, mas é muito bom:
- O que estamos fazendo no mundo? – perguntou. 
Ela lançou um olhar distraído e disse: - o que importa? Estamos vivos, não?!
Ele, segurando as pernas junto ao peito, respondeu: - Se não importa, não estamos vivos. Viver não é só respirar...
Ela sorriu. Não podia entender mesmo. Levantou, abriu as asas e saiu voando.
Ele continuou como uma pedra a noite inteira.


E a expressão "fusão alienígena do sujeito no objeto" é fantástica.

Parabéns!!!
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