Sexta, Março 12, 2010
   
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Edição 291 (27/08/08) - Um mundo operário, um mundo literário

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Cada vez mais estamos nos tornando – e me desculpem se “chavoneio” - “escravos do sistema”. Se até a primeira metade do século XX ainda nos dispúnhamos a sentar e ler devagar e com prazer, hoje, com uma freqüência cada vez maior, temos a tendência de ler o mais depressa possível uma determinada obra ou mesmo artigo de revista, com o objetivo de seguir adiante. Não podemos parar. O mundo gira mais depressa e se eu não estiver de pé antes do meu “adversário” eu perco o bonde do tempo.

A leitura transformou-se de instrumento de lazer em peça de uma engrenagem utilizada para compensar as angústias de um mundo normalizado, individualista e competitivo. São poucos entre nós que conseguem comer e sentir o devido gosto nas refeições. Uma sucessão de garfadas que se sucedem uma em cima da outra, com mínimos espaços para a respiração é a tônica. Como conseqüência, a obesidade encontra-se em índices epidêmicos. Até as relações sexuais parecem que passaram a ser feitas por obrigação e precisam terminar o quanto antes para que se possa assistir ao filmezinho ou fazer outra coisa qualquer (dormir para enfrentar o dia seguinte?)... Sintomas conversivos e psicossomáticos são realçados neste mundo sem sentidos, em que o corpo oblitera até onde agüenta a angústia da crise de percepção mas cedo ou tarde acaba cedendo à pressão que vem de todos os lados.

Deste painel, nem as crianças estão completamente livres, pois a sobrecarga de atividades que lhes são imposta desde cedo – inglês, espanhol, natação, balé, aulas de informática lhes deixa pouco tempo para a leitura e o lazer. E quantas são as crianças que, sem estímulo parental adequado se dispõe por conta própria a buscar um livro? Não é mais fácil pegar um pacote de “chips” e se anestesiar na frente da tevê, do videogame ou do computador?

Não podemos querer muito em um mundo onde os pais dessas crianças trabalham oito, dez, doze horas por dia em busca do seu ideal de consumo, em busca do conforto material que se lhes impõe como necessidade a partir de uma propaganda que mais parece uma máquina de lavar consciências.

Nichos como o Simplicíssimo, O Pensador Selvagem, Cronópios e alguns outros são resistências ativas a este padrão desumanizador de vida. Existem muitos pensando em alternativas para solucionar o estado de desatino ao qual abraçamos como recreio da felicidade. Entretanto, a comunicação entre estes pensadores e os possíveis efetores da mudança ainda não se estabeleceu de forma significativa, capaz de gerar mudanças sensíveis na realidade como a temos. O trabalho é incansável, mas necessário.

Por um mundo mais literário e menos operário, mais focado no lazer, na arte e nas relações humanas e menos centrado nas relações com o trabalho, a competição e o dinheiro, subscrevo.

 

Rafael Reinehr

 

PS: Os nossos entusiasmados parabéns para a Simplicolunista Lilly Falcão, que teve seu conto “De Valquírias e de Mercedes” selecionado pelo Primeiro Concurso Mercedez Benz de Contos. Parabéns pela conquista! Esperamos agora a edição do livro.

PS2: Se você também quiser dividir suas conquistas e premiações literárias, fique à vontade para entrar em contato e nos comunicar. Teremos satisfação em aumentar o volume dos alto-falantes e anunciar a todo som o seu mérito.

PS3: Queremos dar as boas vindas aos novos integrantes da Nau Simplicíssimo que estréiam nesta edição:

  • Simone Cristina Bazilho
  • João Batista Santos
Sejam bem-vindos Simone e João!

 




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Comentários (7)
  • Lilly Falcão  - Subscrevo...
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    ...e me atrevo a dizer mais um tiquinho: se temos poesia, estamos no caminho certo! ;)





    PS: A antologia "Contos Caminhoneiros", da Mercedes Benz, tem previsão de lançamento para
    setembro! Obrigadíssima pelo apoio! :P
  • Edweine Loureiro  - Nichos Literarios...
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    Sim. Temos que preserva-los. Pois sao os ultimos focos de resistencia a rotina e a auto-destruicao.

    Em tempo: PARABENS, Super-Lilly, por mais esta conquista literaria.

    Abracos orientais e desorientados.

    Edweine :pinch:
  • Léa Sperb  - Maquinas!!!
    avatar
    :silly: Com o tempo nós nos tornaremos cada vez mais máquinas comandadas e sem "calor"!!!

    Felizes somos nós Simplicíssianos que temos a oportunidade de compartirlhar um pouco de cultura,
    mesmo que pelo computador, mas é extremamente válido!!!

    Grande abraço. :P :P
  • Branco Leone
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    Concordo totalmente. Mas não é preciso apenas falar das possibilidades de uma outra ordem. É preciso
    dar o exemplo e parar. Eu já parei. Quem quiser me seguir, que se sente.
  • João Batista dos Santos  - Não somos máquinas
    avatar
    Não somos máquinas... ainda. Apesar de estarmos a cada dia que passa mais e mais parecidos com elas.
    E nada melhor, de fato, pra fazer frente à nossa crescente robotização do que a Arte. Dizem que a
    única coisa que os computadores nunca irão conseguir é escrever um poema ou pintar uma tela. Com
    sentimento, claro.
  • Eduardo H. Sabbi e Ibbas Filho  - em toda parte
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    Lemos muito depressa e não entendemos nada - rsrsrsrs. Agora falando sério, essa parece ser uma
    crise geral. Não sei se nossos nichos escapam. Semana passada apredemos a abrir cadeados no youtube.
    Tinha também link para abrir carros e por aí afora. O que aterrorizou mais: a perda dos limites
    éticos ou a fragilidade da nossa segurança? Enfim, se não pararmos agora, onde isso tudo vai parar?



    Mas para quem ainda tem um tempinho livre, é bem-humorado e ficou curioso em aprender com se abre um
    cadeado, recomendo o vídeo: "Abre com a mão!"



    Grande abraço.
  • Lilly Falcão  - ps: :))))
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    o tal do "abre com a mão" é muito bom!!!

    melhor é impossível...kkkkk valeu, dudz! :silly: :woohoo: :P
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Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)