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Escrito por Dalson Carvalho   
sexta, 12 de setembro de 2008
É NOITE DE SAÍDAS DISCRETAS sem chamar muita atenção – um cuidado extra, dobrado, com o barulho dos passos de all-star e com a chave na porta e com a própria porta velha e enferrujada, barulhenta e solitária que insiste em tentar nos denunciar nas horas tardes da vida porque ela está distante dos seus amigos e tornou-se misteriosa e secreta, guardiã de segredos inimagináveis – saímos e é hora da tecnologia do portão eletrônico acionado por ondas invisíveis, lasers vermelhos ultravioletas que não enxergamos nem quando elevamos nossas mentes a ondas impossíveis ao ponto de ver o rastro das luzes e focar o menor feixe dourado que navega por velocidades sobrenaturais e carrega todas as cores possíveis – saímos e estamos na rua e um gato pardo e magro nos olha e seu olho brilha como metal e um cachorro busca comida nos sacos de supermercado, agora sacos de lixo indigestos e uma libélula cega e sem sentido esbarra na minha testa e solto um porra! alto e sem sentido e ele olha pra mim com reprovação, mas já estamos do lado de fora e agora o mundo é nosso limite e o céu é o próximo limite e podemos alcançá-lo com 15 contos ou duas garras de vinho barato, ou uma garrafa de um vinho melhor que nos conectará mais facilmente com os anjos perdidos nas sombras dos postes das praças do velho centro – mas que droga! ainda estamos na porra da porta, no portão eletrônico que trinta segundos depois iniciou automaticamente seu retorno pra seu descanso protetor e agora estamos presos do lado de fora porque ele esqueceu a chave do lado de dentro e eu esqueci que não tenho dinheiro algum e que imaginei que tinha, mas minha imaginação não vale muito, quase nada, no mundo real e agora tudo muda e o céu está tão distante de nós e o mundo tão hostil e perigoso – há um bueiro nos encarando e restos de cigarro no bolso esquerdo – sentamos e fumamos e falamos sobre a vida e baratas e ratos sentaram conosco pra ouvir nossas histórias – era quase dia e ele pulou o muro sem se preocupar com a cerca elétrica e levou um rápido choque que não o matou, então nos divertimos – fui embora seguindo a última nuvem e ela tinha forma de um urso de pelúcia – imenso, inofensivo e carinho, que depois se transformou em um pão e depois em uma cama bem macia e por fim em sonhos delirantes com múltiplos orgasmos.


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Comentários
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João Batista Santos   |19-09-2008 06:47:18
avatar Belo e poético devaneio, colega. São momentos assim, cheios de doces tristezas e de abruptos contentamentos que nos fazem poetas e seres humanos mais sensíveis. Gostei muito do seu texto. Parabéns.
Edson Rufo   |21-09-2008 19:23:41
avatar Amar e sentir, perder e ganhar ... simples sonhar. Adoravel parabens
Eduardo H. Sabbi e Ibbas Filho  - Opa   |22-09-2008 19:08:31
avatar Muito boa estréia Dalson. Um texto envolvente e divertido, que joga com essas coisas que realmente se passam no real (sem nos darmos conta) e no imaginário (que enchem nossa consciência).

Grande abraço!
Léa Sperb  - Bem-vindo!   |23-09-2008 11:44:43
avatar Parabéns Dalson! Bela estréia.
Lilly Falcão  - Seja muito bem-vindo, Dalson!!!   |23-09-2008 14:11:12
avatar Muito boa prosa, cheia de incríveis verossimilhanças! Parabéns!
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