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Noturno Púrpura (As horas murchas) PDF Imprimir E-mail
Prima Lettera
Escrito por Estevão Daminelli   
terça, 23 de setembro de 2008
Aquilo que faz de uma pessoa o que ela é, pairava incólume na esfera adormecida do delírio bruto e monolítico das ruas, onde Orestes caminhava entre fantasmas e bocejos turvos, e tornava o ar pesado, grávido de tudo. Orestes tinha sonhos e sapatos; dois cigarros amassados, vinte e duas primaveras e um inverno; infinitas avenidas concubinas da deriva e que se lhes submetia; pés molhados e nenhuma prata. Nenhuma fresta no possível consumado. Quando dois olhos incrustados em uma massa de poeira e rugas, como duas ágatas negras, selvagens no abandono de existência puta, por um frêmito de instânte flutuaram ante os olhos semi-desacordados de um Orestes de repente mais idoso uns trinta séculos de tédio, para depois sumirem arrastando nuvens luminosas de miséria, como a calda de um cometa desgraçado.

Uma palavra desenhou-se no silêncio, e lentamente repousou sobre as orelhas do rapaz, lígua fria, lâmina de carne, mole, orcanicamente hostil naquele estéril simulacro de cidade. A fagulha de uma chama louca se acendeu nos posros, fez-se ouvir distante nus cem quilômetros de asfalto e lixo o ranger dos dentes subitamente em colisão, num rito de reconhecimento arcaico entre céu e terra na boca da noite. Mas passou como fumaça. De alguma esquina verberou um canto fúnebre, uivo púrpura de vento e pó de chumbo, e um estouro de vespas daninhas inundou as artérias da cidade, numa tempestade de ferrões, tombando os automóveis e arrancando mulheres e homens de seus sonhos lúcidos, de seus pesadelos periódicos, suas noites brancas, atirando todos em pijamas, nus e horrorizados, às calçadas que já começavam a enrubrecer de escuras poças de passado vivo.

Pássaro de natureza branda, em cuja cela galga inerte o gris cotidiano com seus móveis enfadonhos, suas coisas de matéria plástica e cálculos e fatos, com toda a tristeza de um jequitibá tombado, a vida, assim tocada por um timbre suicida, partiu em revoada na canção exótica da noite nas intâncias da alma. Orestes viu dilacerar-se a seda fina e delicada que separava as noites subjetivas, cada qual em seu compartimento estanque, e uma noite maior, de um siêncio metálico e rude, tragar os restos de existência, recolhendo os dentes entre tufos de cabelo e baterias velhas, e lançando as migalhas numa vala comum onde jaziam as horas murchas, os desapetites, a ingenuidade imperdoável do pretenso significado que nunca habitara coisa alguma, jamais fulgurara em qualquer horizonte azul, na vastidão de nenhum planeta,em nenhuma noite, em ninguem, em nada.

Mas tudo cessou como cantiga, úmida e preguiçosamente, devolvendo a orestes a cidade, as luzes, os sentidos. Foi preciso ainda, para recobrar a vista, sequestrar os olhos dos olhos que penavam cegos e ver a certeza que têm as cosias de existirem sólidas, e saber de um grilo improvisando fados para ter ouvidos, e pisar em pregos para supor o contorno de seu corpo no espaço, e ter à boca terra pra saber-se vivo; respirar por fim, e ter de novo espírito.

As mãos nos bolsos gelavam ao tocar centavos como gela a chuva ao perceber no chão a substância definitiva.


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João Batista Santos   |25-09-2008 08:25:56
avatar Belo poema em forma de prosa! Uma delirante viagem pelo mundo das palavras e dos becos e dos campos em forma de asfalto onde os sonhos florescem e despencam na eterna primavera/inverno da Poesia. Parabéns!
Fabiana Falcão   |26-09-2008 11:23:31
avatar Maravilhoso!
Eduardo H. Sabbi e Ibbas Filho   |01-10-2008 19:42:52
avatar Parabéns pela estréia Estevão. Um texto rico em palavras mas confesso que ficamos um pouco perdidos sem entender muito o enredo, com a sensação de ter faltado alguma coisa para dar sentido à leitura.

Um abraço.
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