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Fábulas da Marmota
Escrito por Luiz Eduardo Ulrich   
segunda, 06 de outubro de 2008
E eis que os bons ventos me sorriram: encontrei a mais feliz das leituras dos concertos para piano do bom Beethoven. Especialmente quanto ao Quarto Concerto, que já é em Sol Maior, parece que Leonard Bernstein na regência e Krystian Zimerman ao piano iluminam ainda mais a partitura, além do que meus ouvidos jamais perceberam em outras interpretações. A minha opinião é pessoal e parcialíssima.

Vejo muito mais falarem num Pollini, reinando absoluto em sua interpretação sem máculas; também a sensível interpretação de Alfred Brendel é digna de atenção. Mas vou me isentar da ingrata tarefa de esticar a lista de intérpretes. Não é necessário. A luz do sol brilha altissonante nas escalas beethovenianas, e não há melhor forma de materializar o fato que escutar o desenho que as mãos de Zimerman emprestam ao discurso musical.

Fosse tão claro e cristalino o ensaiar e executar de um sistema filosófico - escolham o que quiserem - quanto o é para qualquer partitura de Beethoven, e ali teríamos a solução amorosa revelada pelo Quarto Concerto, expressa na convivência luminosa do ser humano consigo mesmo e com o mundo.

Mas na música temos muitos ouvintes e poucos executantes: acima de todos, o brilho dos melhores prevalece, pois não há outra forma de o compositor conversar com nossa alma. Na filosofia, todo o ouvinte é um potencial falador: não raro os papagaios falam e os sábios se calam. E não poucos papagaios fazem as vezes de ardorosos intérpretes, de doutos senhores de um discurso a que pretendem emprestar um verniz de autoridade iluminada. As idéias viram cores clubísticas e duelam umas contra as outras, não em busca da verdade, mas da vitória, mesmo que mentirosa.

Ora, se não há tarefa na filosofia tão nobre quanto a busca da verdade, dificilmente tangível sem árdua e silenciosa reflexão, não sei como classificar alguns papagaios impulsivos que vestem a camisa deste ou daquele Grande Filósofo, pretendendo assim serem reconhecidos também como filósofos. O prestígio amiúde vem. Mas o brilho claro e cristalino do gênio e do talento emergem da escuridão dos ruídos como acordes poderosos derramados ao piano, sem que seja necessário qualquer anúncio, qualquer exaltação.

O gênio filosófico não se concede na faculdade, por obra e graça de um senhor reitor magnífico, mas revela-se como dom divino, e abre caminho nos corações dos homens apenas com árduo trabalho. Ou isso, ou tenha-se por verdadeiro o dito do próprio Beethoven: "a música é uma forma de revelação mais elevada que toda a sabedoria e filosofia".


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