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Instruções para dar corda no relógio
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Escrito por
Alessandro Garcia
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terça, 19 de julho de 2005
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Se culpa e redenção são dois temas sempre tão em voga no cinema norte
americano, não é pegando leve e nos oferecendo traminhas água com
açúcar que se conseguirá chegar a algum resultado digno de admiração.
Já não são poucas as produções que optam por tal caminho fácil, tática
deprimente para se conquistar emotivos no cinema e lágrimas e atuações
"vigorosas" adoradas pelos cartolas que, ao final das contas, concedem
estatuetas para tais preciosidades.
Lidar com temas polêmicos é outra coisa que não é fácil de se fazer,
mas é bem provável que se todos que se aventurarem pelo gênero
utilizarem da mesma simplicidade e boa dosagem que a estreante em longa
metragem Nicole Kassell utilizou para realizar o seu O Lenhador ( The Woodsman, EUA, 2004), mais e mais produções com tão bom gosto poderão irromper em próximas estréias.
O Lenhador é um filme polêmico pelo simples fato de lidar com um tema
tão execrável que é a pedofilia. E mais, é o protagonista o pedófilo
que acabou de cumprir doze anos de cadeia por bolinar garotinhas. Ele é
Walter, tocantemente interpretado por Kevin Bacon por motivos
que poderiam tanto incluir seus pequenos tiques que revelam gestos
além, olhares perdidos e ações minimalistas. Mas definitivamente, foi
pela escolha pela concisão que o ator mais acertou. Ao não encher de
delírios redencionistas o seu personagem, o que temos vendo Walter
é um homem infeliz querendo se livrar de suas taras depois de pagar à
sociedade por um dia as ter levado à tona. Conta com a ajuda de um
psiquiatra com quem às vezes, segundo suas próprias palavras, conversar
"parece andar num carrossel", uma vez que suas indagações sobre a
possibilidade de se tornar um homem "normal" são respondidas com
questionamentos sobre o que para Walter é, afinal, a normalidade.
Para tentar se reintegrar à sociedade, Walter passa a trabalhar em uma
madeireira. A alusão ao título se dá de duas maneiras que se completam.
Um dia, após receber a visita vigilante que passa a se tornar eventual
do Sargento Lucas, policial interpretado por Mos Def (rapper que atuou em Uma Saída de Mestre
, com Mark Walhlberg e Charlize Theron), que odeia pedófilos e insinua
mais de uma vez que Walter não deveria ser reintegrado à sociedade,
este lhe relembra a história de Chapeuzinho Vermelho, lamentando o fato
de que, ao contrário da fábula, em que o lenhador cortou a barriga do
lobo para libertar a Chapeuzinho, "o mundo não tem mais lenhadores".
Ironicamente, Walter corta madeiras na madeireira, ainda que com serra
elétrica.
Não há compaixão por parte da diretora para com seu personagem. Da
mesma maneira que não há quando seus colegas de trabalhos vêm a saber
sobre Walter (através do ardil de uma secretária que sente-se preterida
em suas intenções amorosas para com Walter, e após descobrir o seu
passado espalha sua ficha de crimes pela madeireira). A família de
Walter não quer mais saber dele. Sua reclusão só é minimamente reduzida
pela presença de seu cunhado ( Benjamin Bratt ) que, ao contrário de sua esposa, irmã de Walter, ainda se faz presente.
Tal fuga de estereótipos, tal opção pelo caminho não óbvio da mágica
redenção nos possibilita que, em determinado momento achemos que Walter
pode simplesmente se entregar novamente à nova recaída. A cena em que
adentra o bosque, tal qual Lobo Mau, atrás da indefesa Chapeuzinho
Vermelho, é sintomática desta possibilidade. Quando observa a ação
diária de um pedófilo na escola infantil em frente à qual mora (mais
esta tentação a lhe provocar...) é que vemos que talvez esteja ali – no
prático auxílio que com seu conhecimento possa contribuir – a sua real
chance de redenção, mesmo que o caminho maior seja tortuoso e nem um
pouco rodeado de flores.
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Gentileza prestada pelo digníssimo
Alvesto, do blógue Abstracto Concreto ao Simplicíssimo.
"Riscador" de mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em
tamanho maior no blógue do amigo.
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