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Escrito por Pedro Armando Furtado Volkmann   
quinta, 23 de outubro de 2003
Quando eles se encontraram pela primeira vez, tive a certeza que alguma coisa estava errada. Mal se olharam e vi no brilho dos seus olhos, um desejo estranho, algo que conspirava contra mim. Eu até achava ela atraente, aqueles belos seios, ideais para mim. Trocaram telefones, mas tinham um sorriso que para mim, era sarcástico.
Fiquem pensando no dia em que passarei desta para melhor. Imaginando se aquela sensação do túnel de luz branca existe e como passarei meus últimos momentos aqui. Gosto do meu jeito e não faz muito que estou nesta dimensão. Sofrerei muito na passagem? Antes dela? E, depois, do outro lado, como será? Sentirei o que sinto agora? As mesmas emoções? Os mesmos medos? Como será o verdadeiro medo de morrer?
Será que esta é a minha hora? Será que já cumpri todo o meu dever? Faz pouco tempo que aqui cheguei, um pouco menos de oitenta anos.
De novo aqueles dois juntos, não faz nem um ano que se conheceram e parece que o fim dos meus dias está começando a ser tramado. Eles escreveram coisas, um plano, cochichavam, se encontravam às escuras. Tenho certeza que minha hora está chegando.
Agora, vejo tudo mais claro, mas o medo continua, não sei o que me espera do outro lado, não sei como escapar da trama dos dois. O que eles vão fazer comigo? Estarão bêbados neste dia? Brindarão alegres meu destino? Tenho medo, o pânico toma conta de mim. Não tenho como evitar, falar para alguém, gritar, ninguém vai me ouvir. Não tenho forças de agir contra eles, às vezes penso que eles sequer imaginam quem sou ou como sou, o quanto sou feliz por aqui. Posso não ter mais ação no mundo, pois meu tempo já passou, mas porque isto tem que acontecer, logo comigo?
Vão viajar, certamente escapando depois de ter selado minha sorte. Vão para um pequeno País no Caribe. Nunca mais os acharão. Eles têm uma proximidade aterradora. Agora tem mais gente perto de mim que também acha que está com os dias contados.
Tudo me angustia, e a pior parte é que não consigo provar seus intentos, suas ações, dizem as autoridades, fazem parte da vida. Está certo, é inevitável, inexorável, mas de forma alguma acho que alguém deseja isto. Podem chamar de recomeço, mas para mim é retrocesso.
Ainda bem, estão brigando, se debatem, ela chora, grita e urra. Ele não tem mais forças, vão se matar. Estou salvo. Ainda mais que ele pegou uma arma, alegando que a mim não pode matar. Acho que a verdadeira culpada é ela. Ele vai usar a arma. Cuidado! Ouvi uma explosão!!!!
Ela não morreu, mas segue deitada, completamente sem forças. Mas a vida ainda pulsa.
Será que ela sente o que eu sinto, esta estranha sensação de vazio, um túnel me puxa, acho que conseguiram, não tenho certeza como e porque, mas ela venceu. Não sinto mais nada, estou perdendo o controle, sentindo um misto de tristeza e alegria, de dever cumprido e ao mesmo tempo raiva do que deixei de fazer. Não é uma sensação ruim apenas é diferente.
Ela teve que ir ao médico e vem com os exames. O ferimento foi grave, mas tem solução. Ela diz, muito contente:
Se for homem, vai se chamar André. Mas querido, tenho o pressentimento que são gêmeos.


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