Quarta, Maio 23, 2012
   
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Edição 282 (11/06/08) - Dia dos Namorados

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Olá, caros e inspirados colegas escritores!

Abro o editorial agradecendo ao pedido do Eduardo Sabbi para que eu escrevesse esta página, e um agradecimento a mais pela receptividade, após um período de afastamento meu das atividades de escrita. Buenas, estou aqui novamente, e alegre pela possibilidade de voltar a pertencer ao "condomínio literário" do Simplicíssimo, onde nos visitamos, compartilhamos afinidades literárias comuns e nos encontramos pelos corredores dos comentários!

O pedido do Eduardo deveu-se à chegada do Dia dos Namorados, data que convida a viver o amor em sua plenitude, celebrando ou refletindo, e também ao fato de que, como já comentei no site algumas vezes, em 2007 traduzi o livro "A Natureza do Amor" (Ed. Atheneu, 2007), da psiquiatra e pesquisadora italiana Donatella Marazziti, que há muitos anos vem estudando a neurobiologia do sentimento amoroso. O tema me fascinou (e o amor é sempre tema que me fascina) e fiz contato com a autora, o primeiro de uma série até a finalização deste árduo, mas tão gratificante trabalho, que foi a tradução. Convidou-me a traduzir o livro no Brasil, conferenciou em nosso Congresso Brasileiro de Psiquiatria e está por lançar seu próximo livro na Itália, sobre a neurobiologia do ciúme (interessantíssimo!), com perspectivas de publicação no Brasil com nova tradução minha. Considero que o trabalho de Dra. Donatella seja muito válido sob a perspectiva de elucidar mecanismos neuroquímicos envolvidos na paixão e no amor sem tirar destes a poesia, apresentando-os na esfera biológica como partícipes da nossa condição humana. A isto se acrescenta o fato de que conhecer ainda mais o sentimento amoroso abre a possibilidade de apreendermos suas armadilhas biológicas, seus artefatos e percursos, com a compreensão acerca deste sentir, algo relevante no que concerne ao nosso amadurecimento na vida adulta.

Roland Barthes, em "Fragmentos de um Discurso Amoroso" refere que [todo coração quer ser objeto de um dono], o que, a meu ver, é a mais límpida verdade: o desejo de ter-se o coração habitado e a solidez tranqüila do amor fazem parte de nossa bagagem cultural e psíquica no Ocidente, e toda uma gama de substâncias e engrenagens entram em jogo para que isto e realize. Acrescento um trecho de Neruda, acerca da expectativa desta ocupação e dos sofrimentos a ela inerentes...
"(...) E assim te espero como casa só
E voltarás a ver-me e habitar-me
De outro modo me doem as janelas".
O amor é resultado do complexo funcionamento que nossa parte mais evoluída do sistema nervoso central é capaz de criar: o neocórtex contém o repertório de emoções mais elaboradas, como o estabelecimento de vínculos, a vontade e decisão de estar com alguém, de manter a ligação e a fidelidade, de empenhar-se na relação afetiva, de habitar o coração do outro e de tê-lo habitado, de aceitar o outro tal como é. O cérebro límbico é o responsável por nossa libido ligada ao outro, nosso prazer sexual associado à atração e desejo; o cérebro reptiliano, o mais primitivo, é o responsável por nossos instintos sexuais, agressivos, de sobrevivência. Estas três estruturas, de estratos de evolução diferentes, são fundamentais como conjunto, para que possamos exercer o sentimento de aproximação com o outro em todas as esferas de nosso existir.

Este esclarecimento, como tantos outros muito interessantes e relevantes, são fornecidos pela pesquisadora com uma linguagem clara e acessível, como uma leitura informativa e lúdica, ao mesmo tempo. Além do acima exposto, há também explicações sobre o papel de estruturas cerebrais específicas, neurotransmissores e seu funcionamento, mecanismos atribuíveis às fases de apaixonamento e vínculo, e a necessidade de que haja uma evolução natural do primeiro para o segundo, consistindo o amor numa entidade dinâmica, que deve evoluir e envolver nossa biologia em todas as suas dimensões.

Porque sim, nos apaixonamos, e queremos viver esse sentimento em sua plenitude, permitindo que outras demandas de nossa vida sejam deixadas de lado, permitindo que a orquestra de sensações pela qual somos tomados toque em todo nosso ser, ocupando cada espaço de nosso corpo, de nosso dia, de nossa noite. E é assim, sabemos...Essa descarga intensa, essa tempestade de sentimentos e impressões é de nossa essência mais primordial, associada ao nosso cérebro límbico, antes que nosso neocórtex (o mais evoluído, "dono da razão") entre em cena e comece a questionar nossa escolha- sua participação chega com atraso, quando os mecanismos que regem o apaixonamento já estão imperando: por isto diz-se que a paixão é um sentimento "prepotente", o que em biologia significa dizer que prepondera, ocupa espaço, não abre portas para outras condições. E então, somos por um período 'reféns' desta intensidade. O processo inflamatório vai se atenuando, nossas demandas da rotina pedem espaço, o córtex convida a refletir, as descargas bioquímicas sofrem uma habituação e tudo se modifica gradualmente....Até que os caminhos se bifurcam e, ou entramos pela estrada do amor, ou terminamos o relacionamento...Simples assim? Não! A complexidade está na forma como vivemos a primeira etapa para chegarmos à segunda, o estabelecimento do vínculo. Todas as etapas são necessárias, é preciso passar pela paixão para chegar ao amor, biologicamente falando...Podemos encontrar o amor de outras formas, claro, e não há nada de mal nisso: o exposto nos estudo da pesquisadora é o fato de que é preciso que haja nascimento, florescimento, evolução, que não acordamos amando o outro, mas aprendemos a amá-lo com o percurso de nossos processos biológicos e psíquicos.

Para todas estas explicações teóricas temos os correspondentes sentimentos em nós, quer seja expectativa, realização, alegria ou tristeza, partes de nosso arsenal humano. E então, sentir todas essas facetas, conhecendo-as, faz de nós indivíduos mais plenos? Cada um saberá sua resposta, mas como tradutora, psiquiatra e ser humano, concordo com a colocação da autora do livro: "um maior conhecimento dos sistemas biológicos que contêm os vários componentes e as várias etapas do amor poderá apenas ajudar-nos a amar de maneira cada vez mais completa. Descobrir as raízes biológicas do amor, segundo nós, significa também descobrir sua humanidade, liberada de qualquer influência de cultura e sociedade, e alcançar o seu significado mais profundo." (Donatella Marazziti). Para este Dia dos Namorados, desejo aos colegas escritores e leitores um espaço interno reservado à este sentimento, seja em sua vivência mais plena,celebrando o amor, seja de modo intimista, refletindo sobre o modo de melhor vivê-lo.

Agradeço a todos por chegarem até aqui, e até a próxima semana, na coluna Labirintos! Abraços, Betina


--
Em tempo: essa edição traz mais uma estréia: Elainemalmal. E muda de cor, em homenagem à semana dos namorados, para aquecer os olhos e corações dos amantes. Que o amor esteja com vocês!


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Comentários (10)
  • Mauro Rodrigues  - Bom retorno!
    avatar
    Parabéns pelo Editorial e aproveite o turbilhão do amor que converge para o próximo dia 12. Abraço
  • Débora
    avatar
    Depois de ler este editorial senti uma vontade de comprar o livro!!!!! Tuas palavras cadenciadas
    despertam interesse pelo assunto, ainda mais nesta semana! Diferente dos apelos da mídia e dos
    textos melosos que são publicados por esses dias, teu texto é de uma propriedade científica e
    humana! :grin

    Quem sabe aí não está mais uma "editora" deste "condomínio literário"! :)
  • Frank Santos  - Interessante!!!
    avatar
    Em 1o lugar, seja muito bem vinda de volta, passou um tempo longo longe. Nunca tinha pensado nem
    procurado saber nada do lado científico do amor, bom saber, mas como você mesma diz, sem jamais
    deixar de lado todo o sentimento poético que ele traz.
  • Cibelly Correia
    avatar
    bom retorno para vc!

    o amor entendido em diversos ângulos... ciência e poesia!



    FELIZ DIA DOS NAMORADOS PARA TODOS
  • Edweine Loureiro  - Prazer em conhece-la, excelente Escritor
    avatar
    Sera um prazer te-la novamente conosco. Abracos. Edweine :)
  • Virgínia
    avatar
    Querida Bê...



    Lindo texto...impecável como só vc sabe ser e nesse dia tão especial, não podia deixar de dar uma
    volta por aqui. Saudades de todos

    Beijos :sigh
  • Lilly Falcão  - Eita...!
    avatar
    ...de volta está a menina!!!

    Em pleno dia dos namorados

    dormiram todos brindados

    pelas letras de Betina!



    ;)



    Bem-vindanças, fadinha!
  • Lilly Falcão  - PÊ ESSE
    avatar
    Compro o livro da Donatella mas só o quero com o belo autógrafo da TRADUTORA!!! Faço como? Email-me!
    ;) :p
  • Eduardo H. Sabbi e Ibbas Filho  - Apaixonante
    avatar
    Nada como um tema desses, assim muito bem escrito. Já tivemos a oportunidade de assistir uma
    palestra da Betina no Instituto Cyro Martinse ficou muito claro o amplo domínio do assunto. Daí surgiu o convite para o texto. E que bom que o
    pessoal está gostando.



    Estamos lendo o livro, vale a pena. Ajuda a entender o incompreensível da paixão, do amor, do
    envolvimento, do embate da emoção com o racional. Leitura altamente recomendada!



    Ah sim, muito bom ter a Betina de volta por aqui! ;)



    Um abraço!
  • Betina Mariante  - Obrigada!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    avatar
    Geeeeeeeente!!!!



    Me emocionei com todos os comentários e boas-vindas! Só estou podendo agradecer agora porque entrei
    num Cyber café (não resisti a olhar o Simpli!) nesta manhã de sol aqui na praia e li um a um....!
    Gracias, é muito legal saber que curtiram o texto!



    Garanto que irão adorar o livro, me tocou desde a primeira vez que o li. Porque o amor, seja na
    realidade, na ficção ou na arte,toca a gente, ainda mais em datas propícias...



    Virgínia, Lilly, Cibelly, Débora, Edweine, Mauro, Frank, Eduardo, Ibbas: Estou muito contente de
    retornar à nossa vizinhança, de me perder nos Labirintosda escrita e nos caminhos inusitados encontrar vocês, sentar prum dedo de prosa e seguir o rumo da
    folha pautada...



    E vamos lá!



    Grande abraço e beijo,

    Betina
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