Gostei muito...
Abração,
Marcos Claudino
Última atualização em Seg, 26 de Novembro de 2007 03:07 Escrito por Mauro Rodrigues Dom, 23 de Setembro de 2007 22:00

Estava perdido. Uma situação nova. Pela primeira vez visitava seus parentes no interior e saíra para dar uma caminhada ao redor da fazenda. Afastou-se demais, ou de menos... Não sabia, simplesmente. Via-se totalmente envolto por mata e animais silvestres.
Pensou que a natureza fosse sua amiga. Olhou para as árvores e a revoada de pombas, rumando ao Sol, o levou a concluir que o destino desta seria a sede da fazenda. Afinal, iriam em busca de alimento, pensou. Partiu na mesma direção e após meia hora de caminhada percebeu que não chegara a lugar algum. Apenas mais mata, densa, ainda mais fechada. Ouviu, então, o cacarejar de galinhas. Saiu, em apressada caminhada, buscando orientar-se pelo som. Correu mais rápido, acelerou, mais rápido, mais rápido e ao sair em uma clareira na mata percebeu que perseguia um grupo de saracuras, galinhas-do-mato. A frustração foi imediata.
Provavelmente estaria ainda mais longe da fazenda. Ficar parado não adiantaria nada. Continuou a caminhada, sem sentido ou direção. Gritou. Chorou. Xingou as aves, as árvores. Escorregou, de repente, e caiu num córrego de água cristalina, que circundava pedras pequenas cheias de limo, por onde caminhava sem perceber. O banho gelado o trouxe de volta à realidade. Aproveitou para respirar, lavou o rosto e bebeu um pouco de água. De alma renovada, energia recarregada, argüiu seus sentidos, e os ouvidos trouxeram-lhe esperança: um mugido forte e estridente. Dirigiu-se até a origem do som e, para sua surpresa, estava uma boiada inteira bebendo água, mais à frente no córrego onde caíra há pouco. Mais surpreendente ainda foi a clareira avistada. Finalmente encontrara o fim da mata. O simples vislumbrar do horizonte estampou-lhe um sorriso na face.
Sair das sombras revigorou, ainda mais, seu espírito. Gritou, esbravejou aos ventos, mesmo não sabendo onde estava. A recepção da boiada, por sua vez, não foi tão calorosa. Um touro de quase 1,80m, aproximou-se e bufou. Raspou o casco no chão, por um momento foi como se o vento parasse e seus músculos congelassem, e disparou em sua direção. Virou-se e correu. Correu como jamais correra na vida. A distância entre os dois diminuía, mas ele não desistia. Sua persistência foi premiada por um aramado à frente. Uma divisa firme, capaz de separá-lo de seu algoz. Tentou saltar sobre o mesmo, enrolou-se, porém. Arame farpado, algo que desconhecia até então. Os arranhões foram fundo, sangue brotou de sua pele.
Livrara-se dos obstáculos, acreditava. Do touro pelo arame e do arame farpado pelas próprias mãos. Sua caminhada já era lenta, errônea e desbalanceada. Devagar, indagava-se acerca dos acontecimentos. Um casal de quero-quero revoava sobre sua cabeça. Começaram a chegar mais e mais perto. Um chegou a bater a asa em seu ombro. Desperto pelo toque percebeu sua camisa rasgada e, ao mirar novamente o animal, constatou a pua em sua asa. Correu novamente, mas já não tinha forças para render boa velocidade. Os ataques dos quero-quero piorariam e sua situação também ao dar de cara com um lagarto-de-papo-amarelo que projetava-se em direção ao ninho dos pássaros. Pensou em fazer um ato heróico e inibir o réptil. O titubeio lhe custou caro. Atacado pelo rabo do animal, estatelou-se no chão. Virou alvo de rabadas potentes, despendidas pelo lagarto, em suas pernas e revoadas ameaçadoras dos pássaros campeiros. Nada importava mais que sua vida, que corria sério risco, nesse momento; levantou-se, liberou toda a adrenalina que restava e impeliu-se à frente com toda velocidade que conseguia infringir naquele momento.
Correu sem olhar para trás. Saltou moitas, passou sobre formigueiros, tropeçou em cupinzeiros e buracos no campo. Caiu e rolou pelo chão várias vezes. A poeira já irritando seu ofegante ato de respirar. Os arranhões ardendo mais a cada movimento forçosamente empreendido.
Avistou a sede da fazenda. Não diminuiu o passo, poderia estar sendo seguido por algum animal que ainda o espreitava para atacá-lo. Chegou à fazenda, onde todos o procuravam nervosos. Receberam-no surpresos, aliviados e preocupados. Suas condições subumanas, todo esfolado, com escoriações pelo corpo todo, arranhado e machucado, chorando sem parar, denunciavam sua luta pela sobrevivência. Todos trataram de ajudá-lo.
Após algum tempo, já recuperado do choque, foi indagado a respeito do que acontecera. Para surpresa de todos relatou os acontecimentos com serenidade. Ao ouvir comentários ,então, sobre o azar que tivera e o pouco conhecimento dos animais do campo, suas atitudes e reações, imediatamente concluiu, estarrecendo a todos:
- Eles estavam apenas me mostrando o caminho correto! Se não fossem os animais jamais teria chegado até aqui.
Em resumo, apenas uma conspiração da natureza para levá-lo de volta à fazenda onde passava o fim de semana com a família. Assim manifesta-se, aos 9 anos de idade, o primeiro sinal da personalidade do Capitão Crise. Um homem que se transformaria numa máquina de criar e desvendar catástrofes e planos maquiavélicos. Alguém que poderia muito bem participar do filme Teoria da Conspiração.
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