
patrão.
Belo, belíssimo conto, Marcelo.
Última atualização em Sáb, 10 de Outubro de 2009 23:28 Escrito por Marcelo Sguassabia Dom, 11 de Outubro de 2009 20:00

Penso que numa relação saudável entre patrão e empregado tem de haver diálogo, abertura e franqueza. Por mais que essa relação sofra um natural desgaste de 46 anos, como é o nosso caso. É sabendo que você também pensa assim que tomo a liberdade de fazer alguns comentários sobre seus préstimos e a particulares constatações de natureza diversa, anotadas em 14 do corrente em minha agenda de capa preta – aquela que você ofereceu-me de presente no Natal passado.
Quando optei pela contratação de um administrador doméstico, imaginei estar comprando minha despreocupação quanto a entraves de ordem prática que tomariam-me todo o tempo, ainda que o dia, ao invés de 24, tivesse 27 horas ou mesmo 27 horas e meia. Acertei de vez em quando. Errei quase sempre. Comecemos por um elogio – o único – mas digno de menção neste improvisado relatório. As meias sociais estão seguindo o habitual degradée de tonalidades de um par para outro, na forma como são dispostas na gaveta, facilitando assim a escolha e a combinação com a roupa a ser utilizada. O mesmo critério, contudo, não vem sendo adotado com as meias esportivas e os lenços. Gostaria de saber em que estes itens da indumentária são inferiores para merecerem sua desatenção, Onofre. Numa das reentrâncias da louça do bidê da suíte, em posição perpendicular à duchinha, pude observar um ponto verde de aproximadamente 1mm de diâmetro, o que poderia comprometer seriamente a higiene íntima das senhoras - que por ora não trago, mas que posso vir um dia a trazer aos meus domínios. Queijos com furos em excesso no café da manhã: nada pode me irritar mais e embrulhar meu estômago na hora do desjejum. Sendo os mesmos adquiridos por peça, e não por quilo, acabo pagando pelo não-queijo ou invés do queijo. Solicite, doravante, que a moça do setor de laticínios corte o queijo ao meio para que você dimensione o número de buracos antes de efetuar a compra. Tome como parâmetro uma quantidade máxima de 0,3 furos (dos pequenos) por centímetro quadrado. No começo você precisará recorrer à calculadora científica, mas com o tempo passará a resolver a questão no olhômetro. Já mais de uma vez o alertei quanto à conveniência de alternar o lado de inclinação da vassoura no processo de varredura. Se o esforço de inclinação for só para a esquerda ou só para a direita, os ramos da piaçava ficarão tortos prematuramente para um dos lados, encurtando a vida útil do utensílio. Não creio que sua ignorância chegue ao ponto de não saber o que seja simetria, nem que me venha com a desculpa de ter faltado à aula nesse dia. De qualquer forma, tenho para mim que a questão é menos matemática do que de equilíbrio estético, e para isto basta um mínimo de bom senso. Refiro-me ao frequente desalinhamento entre os quadros nas paredes e os tapetes da sala, bem como à distância entre o Cuco, a imagem de Nossa Senhora de Lourdes e o termômetro que trouxe de lembrança de Campos do Jordão. Passemos ao armarinho de remédios. Nada justifica aquela bagunça, onde todos se misturam: os não-tarjados, os tarja vermelha, os tarja preta ( Rivotril, Eufor, Dormonid, Bromazepan, Tofranil, Prozac ) e por fim os fatais, como raticidas, formicidas, soda cáustica e maionese de casamento – toda esta parafernália em meio aos apetrechos para lavagem gástrica, em caso de arrependimento. Agora, os jornais que forram a gaiola do loro. É preciso que haja uma utilização equânime das publicações. Há lógica no raciocínio: se o Loro fala é possível que também leia, e é justo possibilitarmos ao bichinho pluralidade de informação, alternando a forração com a Folha de São Paulo, o Estadão, O Globo, o Jornal do Brasil e a Gazeta de Jacutinga. Algumas maçanetas das portas estão rangendo, sinalizando falta de aplicação periódica de óleo lubrificante WD40. Você, Onofrinho, mais do que ninguém conhece meu hábito de percorrer todas as portas da casa antes de recolher-me à noite aos meus aposentos, certificando-me, re-certificando-me e tri-certificando-me de que se acham todas trancadas. Por favor, faça sua parte a ajude-me a tornar mais suave esta árdua tarefa. Saberei recompensá-lo com um panetone de frutas e um garrafão de vinho Sangue de Boi, junto com o décimo-terceiro no final do ano.
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